UM TRIBUTO A ROMANO DA MÃE-D`-AGUA, INÁCIO DA CAATINGUEIRA, E LUIZ GONZAGA
por Jair Eloi de Souza

Lembrados
esses dois heróis do gemido poético em ponteio de viola e batuque do pandeiro[1], neste ano, o grande
homenageado foi o Velho Lua, de Exú, Fazenda
Santana, no pé da serra do Araripe, em Pernambuco. Menino “bolchudo”, cabeça grande, puxado na cor, um caboclo sanfoneiro espirrado
do fole de oito baixos do velho Januário. Já taludo, fez aboio reboado, no
traquejo da gadaria. Cantou toada nordestina na pega de gado nos brejinhos do
sertão, domara a vaca estrela e o boi fubá. Muito cedo despertara para os “toques”[2],
acompanhava seu pai Januário, de Itaboca a Rancharia, de Salgueiro a
Bodocó. Frangote, após servir o ”exerço”[3] brasileiro, deu de cabo da sanfona choradeira. Nos anos trinta, meandrando as
estradas empoeiradas em pau-de-arara, transpõe o semi-árido nordestino, e
enfrenta o Rio de Janeiro. Toca em pequenas casas noturnas, no mangue carioca,
barra pesada, a preço de trocados que mal davam para o sustento. Permeia no
baião, no xote jineteado, grava vire-e-mexe, em 1941, a primeira. Depois “Dança
Mariquinha”. Mas, já de parceria com Humberto Teixeira, lança “No meu pé de
serra”, em 1946, onde rebrota sua saudade, melancolia, de seu torrão natal, sua
pequena Exú, e suas andanças na Serra do Araripe, em solo cearense.
No
ano de l947, já na RCA, solfeja a ASA BRANCA, e A VOLTA DA ASA BRANCA, em l950, a primeira considerada o hino dos
povos do cinzento, retrata a seca inclemente, devastadora, impiedosa para com
os viventes dos sertões. A segunda, noticia a volta das chuvas, o ronco do
trovão, os rios cheios, o amor telúrico do nordestino ditando sua volta às
terras do Sertão.
Para
cantar o Sertão andou na tenda de Patativa do Assaré, esse gigante da poesia
provinciana, com a “triste partida”, decantou a tristeza do “Assum preto”, dissertou sobre a feira de
mangai, de Caruaru, chorou em lamento “a morte do vaqueiro”, cantou luar do
sertão, onde Catulo da Paixão Cearense, ponteou a solidão e manifestou sua
vontade de “ser enterrado numa grota pequenina, onde a tarde a sururina chora
sua viuvez”.
Finalmente,
somos pequenos, para decantar a obra poética, melódica, cancioneira, do ícone
Luiz Gonzaga: o retrato do vaqueiro, do aldeão rurícola, do cantador de viola,
dos cordelistas, do puxador de fole ou concertina, do brado sertanejo em ano
ruim, do canto da acauã, do cheiro de xandusinha, do destemor da mulher
paraibana, do amor platônico da cabrocha, “quando
ia passear, comprar farinha lá feira de Pilar”.
Lua,
é tudo isso: o chão, a terra, o povo, o
canto e a saga nordestina.
*É
professor do Curso de Direito da UFRN.
[1] De
pandeiro e viola: O negro alforriado Inácio da caatingueira, no Teixeira,
utilizava o pandeiro para acompanhar sua rima, enquanto que o Grande Romano do
Teixeira, se fazia na Viola. Já o nosso
poeta Fabião da Queimadas, seu instrumento era a rabeca.
[2]
Toques: Nomenclatura atribuída aos antigos forrós pé-de-serra, sambas.
[3]
Exerço brasileiro: Assim Gonzaga se refere ao exército brasileiro, em linguagem
dos sertões daqueles tempos, em uma de suas apresentações no Ceará.
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